REV. MED. - VOL. 6 7 - N ? 1:11 a 1 3 - 1987
Márcia B. de Macedo Soares*
Arthur Guerra de Andrade**
Definição:
A Alucinose Alcoólica é um quadro psicótico apresentado por indivíduos que têm dependência do álcool, e que se inicia na maioria das vezes após alguns dias de abstinência, quando se verifica uma queda nos níveis sangüíneos de álcool (1, 4, 11).
Poucos são os casos relatados em que as alucinações aparecem ainda durante períodos de ingestão
etílica excessiva (1,11).
O conceito sugerido pelo DSM-III (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disease, 3rd. ed.), um critério psiquiátrico operacional, estabelece que no diagnóstico da Alucinose Alcóolica devem ser observados os quatro itens abaixo (6):
A) Existência de uma alucinose orgânica, com alucinações auditivas claras, que aparecem usualmente 48 horas após a interrupção da ingestão etílica severa, num indivíduo que aparentemente apresenta dependência do álcool.
B) O paciente apresenta reação às alucinações de forma adequada ao conteúdo das mesmas (p. ex.: frente a alucinações ameaçadoras o paciente apresenta ansiedade.
C) Ausência de rebaixamento de consciência, ao contrário do que se observa no "Delirium Tremens"
D) Os sintomas apresentados pelo paciente não são conseqüentes a qualquer outro distúrbio físico ou mental.
Para facilitar o reconhecimento do que se entende por uma alucinose orgânica o DSM-III estabelece as características abaixo referidas e sobre as quais deve se basear o diagnóstico (6):
1) Presença de alucinações persistentes ou recorrentes.
2) Ausência de rebaixamento da consciência; ausência de alterações significativas nas capacidades intelectuais (que estão presentes no quadro da Demência); ausência de distúrbios do humor (encontrados nos Distúrbios Afetivos); ausência de delírio predominante (existente no Síndrome Delirante Orgânico).
.3) Evidência na história, exame físico ou exames complementares de um fator etiológico que se supõe estar relacionado com o aparecimento do distúrbio.
É interessante lembrar que o quadro de uma alucinose orgânica pode aparecer também como conseqüência do uso de alucinógenos como o LSD, a psilocibina e a mescalina.
São também considerados como causas de alucinose orgânica quadros de intoxicação por levodopa, efedrina, propranolol (9).
Quadro Clínico:
No quadro clínico da Alucinose Alcóolica predominam as alucinações auditivas (1,3), que se iniciam como ruídos e/ou sibilos de aparecimento preferencialmente noturno: a seguir surgem as vozes, que dirigem acusações diretas ao paciente, chamando-o de "ladrão" "assassino", "sem-vergonha", "marginal", etc, fazendo-o geralmente em 3? pessoa (2,11,13). Muitas vezes essas vozes são reconhecidos como sendo de parentes ou amigos.
O paciente passa a desenvolver, sobre essas alucinações, idéias de conteúdo persecutório; passa a acreditar que está sendo vigiado, perseguido, imagina-se cercado por inimigos.
Surgem então a ansidade, a agitação, aí vem então a ansiedade, a insônia, a agressividade e pânico reativos às idéias deliróides. A conduta do paciente passa a ser regida por essas emoções, e ele pode chegar a cometer homicídos ou suicídio de eliminar o perseguidor imaginário (1,2).
Uma característica importante da Alucinose Alcóolica, como já dito anteriormente, é o fato de a consciência permanecer lúcida, ou seja, o paciente está consciente, lúcido, durante todo o tempo.
Não se observam, também, alterações no pensamento ou distúrbios volitivos (5,10); o ajuste pré-mórdibo nas esferas social e sexual costuma ser também normal nesses pacientes (5).
Exemplo: P.S.S., 40 anos, casado. Etilista importante há 20 anos, parou de beber há cerca de 4 meses, quando iniciou tratamento neste serviço. Refere que, há 3 dias, aparentemente sem motivo, começou a ouvir vozes de outras pessoas, que começavam a chamá-lo de imbecil, ladrão, sem-vergonha, homossexual; essas vozes apareciam á noite e o paciente refere que "não conseguia pegar no sono"(sic). Parou de se alimentar durante esse período e faltou ao trabalho; diz que ficou ansioso, com ligeira agitação psicomotora.
Apresentava idéias supravaloradasde auto e heteroagressividade: achava que essas vozes eram de seu ex-cunhado e queria matá-lo. Passou a andar armado, o que chamou a atenção de um de seus irmãos, que passou a vigiá-lo sempre que saia de casa. Um dia antes da internação, tentou se matar atirando-se em cima de um carro que passava na rua em fente à sua casa; como estava em baixa velocidade parou
a tempo, e o paciente sofreu apenas escoriações leves, tendo sido tratado no PSC-HC e encaminhado ao Instituto de Psiquiatra. Segundo informa, a consciência se mateve lúcida durante todo o tenpo. Foi internado e tratado com baixas doses de Haloperidol (4mg/dia). Com intensa melhora do quadro em 2 semanas, teve alta.
Diagnóstico Diferencial:
Embora as alucinações orgânicas também aparecem em conseqüência a intoxicação por certas drogas, e e m condições clínicas como cegueira e surdez bilaterais, hipotireoidismo, neurossífilis, e e m presença de processos neoplásticos intracranianos do Sistema Nervoso Central (10), o principal diagnóstico diferencial deve ser realizado entre a Aluciose Alcóolica e a Esquizofrenia, com base nas seguintes
características (1,3,11).
Diferenças entre Esquizofrenia e Alucinose Alcoólica:
| Critério | Esquizofrenia | Alucinose Alcoólica |
|---|
| Idade de início | Inferior a 40 anos | Entre 40 e 60 anos |
| Início do quadro | Insidioso | Agudo |
| História familiar | Presença de história familiar de esquizofrenia | Ausência de história familiar de esquizofrenia |
| Personalidade pré-mórbida | Personalidade esquizóide | Vários tipos de personalidade pré-mórbida |
| Fonte das vozes ouvidas | "Espaço interior subjetivo"; conteúdo tem significado mais profundo e especial para o paciente | "Espaço externo"; características de perseguição; conteúdo consiste basicamente em ameaças e insultos |
| Alterações do pensamento | Perda de associações; ausência de objetividade; ausência de corporalidade; desorganização do pensamento formal; desagregação | Consciência lúcida; ausência de distúrbios volitivos ou alterações no pensamento |
Evolução:
A maioria dos casos de Alucinose apresenta um curso curto, não ultrapassando u m mês. Benedetti (5), e m clássico trabalho publicado sobre o assunto, propôs uma classificação, segundo a qual os casos de Alucinose Alcoólica poderiam ser classificados como "agudos" ou "crônicos" com base na duração do quadro. Os casos de"Alucinose Alcoólica Aguda" seriam aqueles cuja duração não ultrapassase os seis meses; nestes casos a cura seria obtida uma vez mantida a abstinência. Permanecendo a ingestão etílica excessiva, entretanto, cerca de um terço dos pacientes tenderia a apresentar uma ou mais recidivas (5).
Os casos de "Alucinose Crônica", menos freqüentes, seriam aqueles de duração superior a 6 meses (segundo Benedetti, de 113 pacientes com Alucinose Alcóolica por ele observados, 90 correspondiam ao quadro agudo e 23 ao quadro crônico).
Nestes casos o curso independeria da abstinência, com alucinações que persistiriam mesmo que não tenha sido reiniciada a ingestão etílica. Ainda segundo este mesmo trabalho, o início dos casos agudos e crônicos teria a mesma forma, o que as tornaria indistinguíveis nesta fase; tudo levaria a pensar que as formas crônicas nada mais seriam do que progressivamente cronificar-se-iam.
Estado Final:
De acordo com essa classificação proposta por Benedetti, observou-se que os apresentavam quadro de "Alucinose Alcoólica Aguda" não apresentaram, após cessado o quadro, modificações a nível de personalidade.
Por outro lado, os pacientes que apresentavam quadro se "Alucinose Alcoólica Crônica" passaram a apresentar, depois de um certo tempo, algum grau de embotamento afetivo, errutecimento sensorial, indiferença, num quadro que apresentava semelhanças com aquele exibido por pacientes esquizofrênicos.
Benedetti, no mesmo trabalho anteriormente citado, observou que dos 23 pacientes com "Alucinose Alcoólica Crônica" segundo aquele citérios, 13 evoluíram par a Esquizofrenia.
O prazo para o aparecimento dos sinais iniciais de Esquizofrenia variou de sete meses a cinco anos após o episódio agudo inicial. Os casos "crônicos" poderiam também evoluir para a Síndrome de Korsakoff (Distúrbio Amnésico causado pelo Álcool).
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